quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Processo de Criação




____________________________________O Processo de Criação

Elza Rocha Pinto

O desejo utiliza uma ocasião do presente para projetar, conforme ao modelo do passado, uma imagem do porvir.[1]
                                         Freud
A obra de arte - e sobretudo a obra literária - não se impõe apenas como um objeto de gozo ou de conhecimento; ela se oferece ao espírito como objeto de interrogação, de indagação, de perplexidade.  [2]
       Gaëtan Picon
Como um complemento ao referencial psicanalítico, achamos que cabia articular alguns pontos de vista sobre o proceder da criação artística. Principalmente no que diz respeito ao fenômeno da inspiração. E incluímos algumas questões sobre o papel da  sublimação. Apesar de Freud (1908) ter afirmado uma correlação entre a sublimação e a arte, existe no processo de criação um momento bem nítido que não se pode articular com as definições clássicas de sublimação. É a “travessia do fantasma”, como diz Pommier[3] ou a “manifestação do espírito” nas palavras de Artaud (1971).
Acreditamos que os trabalhos de leitura crítica que a psicanálise vem realizando sobre textos literários, não somente ampliam a compreensão de tais textos, como também permitem um entendimento maior sobre o próprio autor. Além de contribuírem para tornar mais claro o processo criativo. 
Freud se interessou por alguns pintores: Leonardo da Vinci (1910) e Miguel Angelo (1914), por escritores como Dostoievski (1928), do qual examina Os Irmãos Karamázov e Crime e Castigo. Da literatura estuda ainda a Gradiva de Jensen (1907) e algumas obras de Shakespeare.[4] Seus estudos muito contribuíram para fortalecer a compreensão de que é impossível separar o artista de sua criação. Ao realizar sua obra, o artista a envolve com seu estilo, imprimindo uma espécie de marca registrada nas suas criações.
Em O Poeta e os Sonhos Diurnos, Freud (1908) avança uma explicação sobre o processo da arte. Diz que existe uma grande aproximação entre a brincadeira da criança e a criação do artista.
Toda criança que brinca se conduz como um poeta, criando para si mesma um mundo próprio, ou, mais exatamente, situando as coisas de seu mundo em uma nova ordem, agradável para ela. [5]
A diferença estaria no fato do artista brincar apenas em sua imaginação. Enquanto a criança precisa do referente, no real, onde apoiar sua imaginação.
Para Freud , “a poesia, como o sonho diurno, é a continuação e o substitutivo dos jogos infantis”.[6] A criança ao crescer, interrompe o seu brincar, aparentemente renunciando ao prazer que extraía do jogo. Mas, na verdade, na poesia não existe renúncia alguma, apenas uma substituição onde o indivíduo vai prescindir “de qualquer apoio nos objetos reais, e em lugar de brincar, fantasia. Faz castelos no ar; cria aquilo que chamamos fantasias ou sonhos diurnos”. [7]
O artista vive intensamente seu mundo interior, apoiando-se não mais nos elementos externos - os brinquedos de quando era criança, - mas nos elementos simbólicos[8] já integrados em sua personalidade. Segundo Freud (1908), o artista teria uma necessidade inadiável de ultrapassar seus tormentos, elaborar seus conflitos e sentimentos contraditórios, sublimar, enfim, suas pulsões.
Freud indica o processo da sublimação, através da elaboração destas fantasias. A criação vai atravessar três dimensões do tempo[9]. A fantasia criadora surge da mesma forma que o sonho: através de enlaces múltiplos. Uma impressão atual, uma situação do presente, se torna capaz de despertar um desejo no sujeito. Acompanhamos Freud no desfiar destes tempos:
Uma fantasia flutua entre três tempos: os três fatores temporais de nossa atividade representativa. O trabalho anímico se enlaça a uma impressão atual, a uma ocasião do presente, capaz de despertar um dos grandes desejos do sujeito; a partir deste ponto, apreende regressivamente, a recordação de um acontecimento passado,  quase sempre infantil, na qual ficou satisfeito tal desejo, e cria então uma situação que se refere ao futuro, e que apresenta, como satisfação de tal desejo, o sonho diurno ou fantasia, a qual leva, então, em si, as marcas de sua origem, na ocasião e na recordação.  Assim, pois, o pretérito, o presente e o futuro, aparecem como que entrelaçados pelo fio do desejo, que passa através deles. [10]
Afirma Freud que, da mesma forma como os sonhos noturnos são satisfações de desejo, as fantasias e os sonhos diurnos também procuram realizar os anseios e expectativas do indivíduo.
Os escritores de novelas e contos produzem estórias com uma característica singular. Todas elas tem um protagonista que é o centro do interesse do autor e dos leitores. É através deste herói que se expressa o ego do autor. Segundo Freud, o ego é o real personagem de todos os sonhos e de todas as novelas. Mesmo nas tramas mais complexas dos enredos modernos. Freud vai afirmar que a novela psicológica deve sua peculiaridade “à tendência do poeta moderno a dissociar seu ego por meio da auto-observação em egos parciais, e personificar em conseqüência em vários heróis as correntes contraditórias de sua vida anímica.” [11]
Ou seja, é o desejo do sujeito que flui através da relação que a fantasia mantém com o passado, com o presente e com o futuro:
Um poderoso acontecimento atual desperta no poeta a recordação de um acontecimento anterior, pertencente quase sempre a sua infância, e desta parte então o desejo, que se cria satisfação na obra poética, a qual do mesmo modo deixa ver elementos da ocasião recente e da antiga recordação. [12] 
Finalmente, Freud faz considerações sobre o processo psicológico dos poetas, afirmando que a vida do artista precisa ser levada em consideração, pois seus conflitos íntimos influem na elaboração da obra. Esta conclusão vai ser desenvolvida por Freud, através dos conceitos de projeção e sublimação. A ideia de uma determinação inconsciente não é nova. Traduz uma retomada do pensamento platônico. Platão (1952), se bem que não se refira a conflitos íntimos, afirma que o bom poeta é aquele que enlouquece. Ao criar ele está obedecendo a razões de ordem extra-lógica, para além do alcance de sua consciência.
O próprio Nelson Rodrigues compartilha desta opinião de Freud, uma vez que são constantes as suas referências ao menino que vivia enterrado nele e que lhe trazia lembranças de um passado profundo. Muitas das suas crônicas, refazem seu mundo infantil, onde ele muitas vezes foi o espectador de cenas trágicas e cruéis.[13] Em suas peças, onde a morte é um elemento constante, esta morte raramente é natural. Os desfechos trágicos ocorrem em função de violências. Sábato Magaldi (1987) diz que o próprio Nelson Rodrigues gostava de afirmar que ele tinha sido marcado pelo assassinato de seu irmão Roberto.
Sobre esta questão é bem interessante o diálogo que Sócrates mantém com Íon, onde o filósofo afirma que o artista ao fazer seus lindos versos, da mesma forma como o ator ao representar intensamente seus personagens, eles não estão em seu juízo perfeito. Perdem a consciência, caindo na esfera de atração da divindade, e só assim, inspirado pela Musa ele será capaz de fascinar os outros com seu canto, sua música ou sua dança.[14] Assim a criação literária, para Platão, também obedecia a um sentido oculto, que era necessário investigar.[15]









[1]  S. Freud, O Poeta e os Sonhos Diurnos, p. 1344
[2] Citado por Valmir Adamor da Silva, em Psicanálise da Criação Literária - As neuroses dos grandes escritores., p. 20.
[3] Gérard Pommier, A sublimação e o  final da análise - em  Revista Arriscado - ano II, nº. 4.
[4] Como Hamlet, Othelo e Macbeth.
[5] S.  Freud, O Poeta e os Sonhos Diurnos, p. 1234.
[6] Op. cit., p.  1347.
[7] Op. cit., p. 1344.
[8] Na literatura a criação artística vai simbolizar através das palavras aquilo que o autor pretende dizer.  O elemento simbólico - a palavra - substitui o referente.
[9] A criação, para Freud, vai ser o resultado do enlace entre passado, presente e futuro. Algo na vivência presente do artista se enlaça com algum acontecimento do seu passado e ele, então, se expressa na obra de arte. E esta se lança para o futuro, uma vez que cria um mundo inexistente, um mundo virtual, nem presente, nem passado, um mundo ainda por vir.
[10] O grifo é nosso. S. Freud, O Poeta e os Sonhos Diurnos, p. 1344
[11] Op. cit., p.  1347. Esta afirmação de Freud acaba dando oportunidade para uma contribuição de Melanie Klein, em artigo datado de 1929, A personificação no brinquedo das crianças, onde ela sistematiza e amplia esta idéia. A criança personifica através de seus brinquedos não apenas seu Ego, mas conteúdos do Id e do Super-Ego, que são distribuídos através dos diversos personagens que fazem parte da trama de uma determinada brincadeira. Assim como a criança, ao brincar, vai depositando partes suas nos diversos personagens da brincadeira, um romancista ao desenvolver seu enredo também vai distribuindo características da sua personalidade através dos diversos heróis da trama.  Um exemplo do próprio Nelson Rodrigues pode ilustrar este fato. Numa das mudanças feitas por sua família, Nelson encontrou um diário de uma adolescente, entre os pertences esquecidos pelos antigos moradores. E passa a ler, curiosamente, as confissões da jovem, cujo nome era Alaíde. Nelson parece ter sentido sua curiosidade como coisa de mulher, tanto que projeta este pequeno incidente em Vestido de Noiva, onde Alaíde acha o diário Mme. Clessy, passando a lê-lo atentamente. Ao mesmo tempo projeta outros aspectos de sua vida em outros personagenes. A expectativa diante da operação da moça, atropelada em frente ao relógio da Glória leva as pessoas a especular sobre se ela vai morrer ou nao. Este fato parece refletir a ansiedade pela qual a família Rodrigues atravessou, quando seu tio Augusto Rodrigues, desapareceu durante dias; ele havia morrido atropelado, em frente ao mesmo relógio, e estava sem documentos.Freud, S. O poeta e os sonhos diurnos, Pag. 1347. Esta afirmação de Freud acaba dando oportunidade para uma contribuição de Melanie Klein, num artigo de 1929, A personificação no brinquedo das crianças, onde ela sistematiza e amplia esta idéia de Freud. A criança personifica através do brinquedo não apenas seu Ego, mas conteúdos do Id e do Super-Ego, que são distribuídos através dos diversos personagens que fazem parte da trama de uma determinada brincadeiraFreud, S. O poeta e os sonhos diurnos, Pag. 1347. Esta afirmação de Freud acaba dando oportunidade para uma contribuição de Melanie Klein, num artigo de 1929, A personificação no brinquedo das crianças, onde ela sistematiza e amplia esta idéia de Freud. A criança personifica através do brinquedo não apenas seu Ego, mas conteúdos do Id e do Super-Ego, que são distribuídos através dos diversos personagens que fazem parte da trama de uma determinada brincadeira
[12] Op. cit., p. 1347
[13] Como o suicídio da adolescente que foi sua primeira paixão platônica de menino. A esse propósito, ver Lilia ardeu como uma estrela, em Nelson Rodrigues, O Óbvio Ululante, p. 39.
[14] Plato,  Íon, p. 142  .
[15] Em oposição, Aristóteles em sua Arte Poética não via razão para se preocupar com os motivos que levam um homem a escrever. As condições individuais que dão origem a uma obra de arte não importam. Aristóteles não estuda o gênio na arte. Para ele a tendência à criação poética podia ser vista como uma manifestação instintiva fundamental. “A tendência para a imitação é instintiva no homem, desde a infância (...) Pela imitação adquire seus primeiros conhecimentos, por ela todos experimentam prazer (...) a aquisição de um conhecimento arrebata não só o filósofo, mas todos os seres humanos, mesmo que não saboreiem durante muito tempo essa satisfação. Sentem prazer em olhar essas imagens, cuja vista os instrui e os induz a discorrer sobre cada uma (...) Como nos é natural a tendência à imitação, bem como o gôsto da harmonia e do ritmo (...), na origem os homens mais aptos por natureza para estes exercícios aos poucos foram dando origem à poesia ou suas improvisações.” Aristóteles, Arte Poética, p. 294.  Aristóteles entendia que a análise estética se esgotava na própria obra de arte. Interessa-se pelo fim a que se propunha a obra, e pelos meios que a criação artística empregava, pricipalmente no domínio do teatro. Ao tentar precisar as características do belo, ele insiste mais nos elementos racionais, do que nos sensíveis. O belo residiria na grandeza da ordem. Suas formas se expressam através da unidade ou coordenação (proporção ou simetria, no sentido grego), na determinação ou precisão. Aristóteles, Arte Poética, p. 283.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Teoria das Perversões - A Independência da Pulsão



______________________Perversão - A Indepedência da Pulsão

Elza Rocha Pinto


É interessante observar que apesar de conseguir revolucionar a moral sexual do século XX, Freud não pôde, entretanto, se descartar inteiramente do moralismo da psiquiatria da época.  E acaba permanecendo preso a alguns preconceitos.  Como afirmam Laplanche-Pontalis (l970):
É difícil conceber a noção de perversão sem ser em referência a uma norma. [1]
Assim Freud (l905) acaba realmente por definir a relação sexual normal ao nível da genitalidade, mantendo a hegemonia da preservação da espécie. O fim sexual normal é definido em termos da Natureza.  Mas, independente disto, o importante é que em paralelo Freud (l905) inicia o resgate das perversões:
Porém ainda o ato sexual mais normal integra visivelmente aqueles elementos cujo desenvolvimento conduz às aberrações que descrevemos como perversões.[2]
Portanto, para Freud (l905) as perversões começam a fazer parte da vida sexual normal. Eis como ele aborda este fenômeno:
Determinadas relações intermediárias com o objeto sexual são admitidas como fins sexuais preliminares. Estas práticas preliminares, como a contemplação ou o toque do objeto sexual, podem se esgotar em si mesmas, ligando-se a sensações de prazer. Ou podem, por outro lado, contribuir para elevar a excitação até a realização fim sexual genital.
O prazer preliminar é o mesmo que já provocaram, embora em menor escala, as pulsões sexuais infantis (...) Muitas perversões não são, com efeito, senão tal detenção nos atos preparatórios do processo sexual.  [3]
E, esclarecendo melhor sua posição, ele acaba propondo um sistema de classificação:
As perversões são alternativamente: a) transgressões anatômicas dos domínios corporais destinados à união sexual; ou b) detenções naquelas relações intermediárias com o objeto sexual que normalmente devem ser rapidamente recorridas no caminho para o fim sexual definitivo. [4]
Entre estas relações intermediárias com o objeto sexual podem ser apontados os fenômenos do fetichismo, do voyeurismo, do exibicionismo, e do sadismo e do masoquismo. Em grande parte das perversões não vai ocorrer a integração destes impulsos pré-genitais numa sexualidade madura, onde a energia excedente se expresse através do amor e da procriação, transcendendo os limites da auto-sobrevivência do indivíduo. Como resume Alexander (1965):
As perversões são o resultado de uma falha na integração dos componentes pré-genitais da sexualidade numa forma madura. [5]
É a independência da pulsão que caracteriza a perversão. Se um impulso agressivo se manifesta de forma socialmente ajustada, ajudando o indivíduo a superar obstáculos ou a defender-se de um ataque, não existe aí nenhuma conotação perversa. No entanto já se pode falar em sadismo quando a hostilidade e agressão têm por objetivo a imposição do sofrimento e da dor como um fim em si. Na criança existe um acúmulo de impulsos agressivos e hostis. Sua fraqueza e sua dependência dos adultos acaba impedindo a liberação destes impulsos hostis.  Mas o predomínio e a fixação dos componentes agressivos do complexo de Édipo, algumas vezes se aliam à rivalidade e competição com os irmãos, originando o sadismo. E então sentimentos e impulsos agressivos podem se libertar, expressando-se através de crueldade para com objetos mais fracos. A criança pode ser muito cruel com os irmãos mais novos, ou com pequenos animais. A princípio, as agressões a um dos pais, ou aos irmãos, tem por objetivo conseguir a exclusividade do amor por parte do objeto de desejo. Mas aos poucos a agressão ganha independência e se estabelece como um fim em si mesmo. O sadismo pode se manifestar através de comportamentos de ataque, destruição, atitude de dominação e conquista,
Quanto ao masoquismo, ele se afirma quando a necessidade de punição e sofrimento se torna erotizada. Existem atos de renúncia, e de auto-limitação, subordinados ao princípio da realidade. Ou seja, uma pessoa pode se submeter voluntariamente a uma privação, e mesmo à dor, se isto for necessário para alcançar um objetivo desejado. No entanto, o masoquismo passa a existir quando a dor e o sofrimento se tornam um fim em si mesmo. Então a pessoa tem prazer em punir-se, e busca o sofrimento pelo prazer do próprio sofrimento, e não como um meio necessário para atingir um determinado objetivo. O comportamento passivo da submissão também é uma forma de masoquismo. Dentro da perspectiva freudiana, a ansiedade e a culpa provocadas pela concorrência da situação edipiana, e pela rivalidade com os irmãos podem levar ao masoquismo. A princípio, a auto-punição alivia a culpa pela hostilidade sentida para com o pai ou para com a mãe. Porém gradualmente a punição vai se tornando erotizada.
As perversões são produzidas como desvios de uma adequada elaboração do complexo de Édipo, desvio que privilegia uma determinada pulsão pré-genital. O que Freud está dizendo, então, é que a sexualidade infantil é constituída por componentes perverso-polimórficos, e que em seu desenvolvimento, a sexualidade pode sofrer perturbações. Como na inversão homossexual da escolha de objeto, foco da análise que Freud vem realizando em Os Três Ensaios sobre uma Teoria Sexual.  A partir do homossexualismo, o qual ele ainda designa - de acordo com as concepções predominantes da época -, como uma das aberrações da sexualidade, Freud vai demonstrar que não existe uma dependência entre o sexo do indivíduo e sua eleição de objeto. Originalmente a libido não tem preferências: ela investe indiferentemente em objetos sexuais femininos ou masculinos.[6] Finalmente, numa nota acrescentada em l9l0, Freud acaba resgatando a conotação negativa emprestada ao homossexualismo, ao afirmar a questão da bissexualidade:
...todo indivíduo é capaz de uma eleição homossexual  de objeto e a levou, efetivamente, a cabo em seu inconsciente. Pode-se inclusive afirmar que a ligação libidinosa a pessoas do mesmo sexo desempenha na vida psíquica normal um papel tão importante como a que recai sobre pessoas de sexo contrário, apresentando ainda uma maior significação no que se refere à gênese  de estados patológicos. [7]
Aprofundando sua análise, Freud tem a audácia de afirmar que o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher constitui um problema, e não algo natural. Com isto ele tenta derrubar, definitivamente, o preconceito contra o homossexualismo.
Freud lembra que a eleição de uma atitude sexual definitiva só vai ocorrer depois da puberdade, e será resultado de uma série de fatores, constitucionais ou acidentais. Ou seja, uma multiplicidade de fatores determinantes acaba produzindo uma diversidade de comportamentos sexuais, herança de nossa criança “perversa-polimorfa”. A importante questão que Freud está reformulando, aqui, prende-se à categoria do instinto com seu determinismo de objeto:
Resulta que nós representamos como excessivamente íntima a conexão do instinto sexual com o objeto sexual. (...) entre o instinto sexual e o objeto sexual existe uma solda, cuja percepção pode nos escapar na vida sexual normal, na qual o instinto parece trazer consigo seu objeto. Surge, assim, a necessidade de dissociar, até certo ponto em nossas reflexões, o instinto e o objeto. Provavelmente, a pulsão sexual é, em princípio, independente de seu objeto, e não deve sua origem às excitações emanadas dos atrativos do mesmo. [8]
Com esta reformulação Freud abre as portas da normalidade para as perversões. A pulsão é livre, é independente do objeto, tem uma característica perversa polimorfa. Os desejos podem, agora, tomar qualquer direção. Não mais se apresentam com a obrigatoriedade de seguir um caminho pré-determinado pela natureza, ou pela constituição genética. A solda entre a pulsão e seu objeto, será realizada pelo social. O desejo passa a ser lido como uma produção historicamente determinado.
Interessante é verificar a ambigüidade para onde Freud é carregado, quando procura sustentar o fundamento platônico de um objeto ideal para a sua pulsão.[9] Os outros objetos passam a ser cópias imperfeitas de um modelo, talvez inatingível.[10] As perversões serão cópias degradadas em relação à perfeição do objeto idealizado. Mas, apesar disto, Freud acaba sustentando a imperfeição, o desvio e o erro, pois termina por retirar as perversões da ordem da patologia. Afirmando seu lado sofista,[11] Freud assume que as perversões fazem parte da vida sexual quotidiana. E a patologia só será caracterizada, não pela existência das aberrações, porém por sua intensidade e exclusivismo.
Os doentes mentais mostram unicamente tais aberrações em um grau mais elevado ou - coisa especialmente significativa - levadas à exclusividade, e substituindo a satisfação sexual normal. [12] 
No desenvolvimento da sexualidade, basta que o indivíduo “se apegue excessivamente ao prazer preliminar para deslizar para a perversão”.[13] As pulsões são produzidas em várias partes do corpo. E ela não tem um objeto próprio, ou um objeto natural.
Como afirma Garcia-Roza (1990):
Seu objeto será oferecido pela fantasia, o que implica a submissão da pulsão à articulação significante, e é aí que vai ser possível a caracterização do sexual. Anteriormente a essa submissão, o sexual carece de significado. E é em termos de significantes que o sexual vai se constituir como diferença. [14]
A partir de 1905, um grande número de autores vai se interessar pelo estudo das perversões. Como nosso interesse não é o de fazer um levantamento das diversas teorias, e sim montar um suporte teórico para a interpretação de Álbum de Família, peça de Nelson Rodrigues, estamos delineando apenas os pontos de vista mais clássicos. Para isto nada melhor do que tomar a síntese feita por Fenichel, a qual permanece ainda hoje uma das melhores referências a respeito da psicopatologia psicanalítica. Chazaud, por exemplo, baseia-se em Fenichel, para se organizar em torno das perversões. Introduz contribuições mais atuais sobre a constituição e o processo das perversões.[15] Entretanto todas estas visões continuam mantendo as características essenciais de exclusividade e parcialidade da pulsão perversa. Sendo nossa intenção apenas clarificar a terminologia que vamos empregar na interpretação da peça de Nelson, vamos evitar a exposição dos contrastes e nuances que vão colorindo as diversas formulações. Como foi exposto, estamos nos atendo apenas às formulações compreendidas como mais “clássicas”. Afinal, como o próprio Chazaud nos lembra, após analisar as diversas perspectivas teóricas:
O terreno das perversões segue sendo, pois, problemático. Parece sensato admitir, como ponto de partida, os pressupostos clássicos. E, além disto, não está fora de tom o fazer a relação de algumas formas perversas mais conhecidas, sem querer esgotar todas as sutilezas clínicas e pretender resolver todos os problemas.[16]
De qualquer forma o livro de Fenichel é uma leitura obrigatória, por sistematizar a doutrina psicanalítica sobre a matéria. Logo no início de seu capítulo sobre as perversões, ele nos reporta algo curioso. Os perversos sentem uma compulsão a exercer seu sintoma. Demarca claramente a existência de uma estrutura especificamente perversa. Este era o caminho aberto por Freud, quando ele afirma, nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, que “a neurose é o negativo da perversão”. Outros autores vão percorrer esta trilha, procurando um melhor registro da estrutura perversa. Mas Fenichel já tinha tornado este deslocamento mais fácil, pela clareza de suas colocações. Fazendo a distinção em relação à estrutura neurótica, ele vai afirmar que o neurótico sente o sintoma[17] como penoso. Ora, o sintoma é efeito do reinado perverso polimorfo da infância. Quando mal elaboradas, as pulsões parciais da sexualidade pré-genital, procurando uma via de acesso para a satisfação, acabam constituindo o sintoma. Por isto se diz que os sintomas neuróticos são atos perversos disfarçados; ou, como disse Freud, a neurose tenta reprimir aquilo que a perversão atualiza.
A perversão assume objetivos idênticos aos da sexualidade infantil.[18] E uma distinção que marca o estilo do perverso está no caráter prazenteiro[19] do impulso. Como nos recorda Chazaud:
As atividades perversas se cumprem com a finalidade explícita de alcançar o gozo. No instante do ato, o perverso está de acordo com sua impulsão. Este é o escândalo. [20]
Fenichel desenvolve este fenômeno de uma forma mais detalhada:
O que parece ser característico é o modo de sentir o impulso irresistível. O neurótico sente-se forçado a fazer algo que não lhe agrada, enquanto que o perverso se sente forçado a algo que lhe agrada, ainda que contrário à sua vontade. Mesmo que ele possa vivenciar o sentimento de culpa, no momento da realização do ato, este será sentido como algo que o sujeito quer fazer com o objetivo de alcançar um prazer. [21]
Para Freud, a perversão iria se constituir por uma fixação (detenção no desenvolvimento) ou por uma regressão. Mas, nem todas as regressões à sexualidade infantil vão constituir perversões típicas. Quanto à fixação, é ela que vai determinar qual dos componentes infantis será privilegiado.
Mas, como caracterizar a perversão típica? Segundo a definição de Fenichel, o perverso típico só tem uma maneira de achar prazer sexual:
Todas suas energias sexuais se acham concentradas em um instinto parcial particular, e este instinto hipertrofiado compete com sua primazia genital. [22]
A perversão é, então, a intensificação ou predomínio de uma determinada pulsão parcial que se torna extremamente privilegiada. Mas isto não exclui o perverso do gozo genital. O predomínio da genitalidade não deixa de existir. Está apenas perturbado.  A sexualidade perversa não é desorganizada como a sexualidade perversa polimorfa das crianças ou das personalidades infantis.
Existe aqui uma diferença que marca o limite entre a pulsão perversa-polimorfa e o caráter patológico da perversão. A patologia não está no modo nem no objetivo sexual, porque de outra forma a perversão infantil seria patológica. A perversão só se constitui como patologia enquanto prática exclusiva e limitada, fixada nas pulsões que se tornaram preliminares à lei da genitalidade. 
O que seria então determinante na constituição da perversão? Dentro da teoria psicanalítica que tem o Complexo de Édipo como nuclear, a resposta não poderia ser outra. Só que o perverso vai viver o Édipo e a concomitante angústia da castração de um modo muito especial. 
E se, numa primeira aproximação, as perversões clínicas aparecem como simples “fixações” sexuais infantis, sua estrutura efetiva inclui também a angústia, a culpa, a regressão, dentro de um jogo diferenciado até o fenômeno edípico que dá aos fatos todo seu relevo. [23]
Mas não se trata de uma simples substituição da sexualidade adulta, genital pelo erotismo parcializado da primeira infância. O fato de uma das pulsões parciais se achar intensificada não significa que o perverso não sofra suas repressões. Uma parte da sua sexualidade infantil é recalcada, o que termina por perturbar a capacidade genital. A genitalidade espontânea fica bloqueada. E é para superar tal bloqueio que surge o sintoma perverso.[24]  Ou seja, somente a gratificação de uma determinada pulsão parcial vai conseguir anular a perturbação da primazia genital. O que a psicanálise propõe, então, é que a perversão é adotada como uma forma de defesa. O perverso, assim, faz uma repressão parcial. Em Fetichismo, Freud vai se aproveitar do termo escotomização para se referir a este fenômeno. A escotomização indica o fato de uma parte da vida psíquica não reconhecer uma realidade desagradável, enquanto a outra parte se dá conta perfeitamente daquele fato.[25]
Em outras palavras, a perversão vai procurar facilitar o recalque de uma parte insuportável da sexualidade infantil, a qual é inadmissível para o sujeito, devido à quantidade de angústia que ela provoca. É este o elemento comum que percorre todas as perversões. Ou seja, existiria em todas elas (sadismo, masoquismo, pedofilia, fetichismo, etc.) um único fator que perturbaria a primazia genital. E é o mesmo fator que vai produzir idêntico efeito de medo e culpa nos neuróticos. É o medo da retaliação quando a criança se envolve nos complexos sentimentos do Édipo. “O gozo sexual se fez impossível por causa do temor da castração”.[26] O que é decisivo na perversão é o tremendo impacto causado pelo complexo de castração. Como lembra Chazaud:
Tudo acontece como se o perverso recusasse a angústia da castração e negasse seu temor, hipertrofiando um instinto parcial que assegura a repressão do complexo de Édipo à maneira de uma recordação encobridora. [27]
É sempre a angústia de castração o obstáculo que vai impedir o exercício de uma sexualidade genital completa e satisfatória. E se o prazer genital se tornou impossível, em vista dos perigos da castração, nada mais resta a não ser regredir àquela parte da sexualidade infantil em que a pessoa está fixada. Algumas experiências da infância agem como traumas fixadores, e vão atrair o perverso.[28]
Esta fórmula é aplicada a todas as perversões, sem exceção. Fenichel vai examinar cada uma delas através do mesmo crivo.[29] A mesma coisa vai fazer Chazaud. Embora sua escolha recaia em um número menor de perversões, ele estuda alguns destes fenômenos em capítulos separados. É dele a seguinte observação à propósito da constituição da estrutura perversa: 
Um estudo estrutural profundo nos mostraria que os processos perversos têm relações antitéticas e simétricas com a sublimação e com a idealização, que é preciso tomar aqui em consideração.  [30]
Chazaud lembra que a idealização está na origem da repressão assim como estaria na origem das formações reativas e das sublimações.  A este propósito queremos apenas tecer uma consideração. Pensamos ser possível dizer, de fato, que a idealização norteia a repressão.[31] Mas devemos tomar cuidado com este sentido da idealização, uma vez que este mecanismo de defesa está muito vinculado a processos de dissociação da realidade.[32] Mas Chazaud é tentado a pensar que as perversões representam um paradoxo da idealização:
Idealização da pulsão parcial, intensamente satisfeita e “superestimada” em uma relação parcial  também com o objeto ou com um  objeto parcial. [33]
Para finalizar, uma última observação que se aplica às perversões de um modo geral. A perversão despersonifica o objeto do desejo perverso. Em certo sentido, a cooperação do parceiro é dispensada, e ele é rebaixado da ordem de objeto de amor para a dimensão de objeto de uso.
No entanto, existe na dupla perversa uma cumplicidade tácita, que aponta para uma espécie de acordo entre o sádico e o masoquista, ou entre o voyeur e o exibicionista, entre o fetichista e seu fetiche. Estes vínculos, assim como outras questões teóricas que se apresentarem, vão ser melhor examinados no decorrer da análise de Album de Família, quando então as características de personalidade dos diversos personagens contribuirão para tornar mais clara a exposição das diferenças entre algumas formas de perversões. 


[1] J. Laplanche,   J. B.  Pontalis,  Vocabulário de Psicanálise, p.  432.
[2] S. Freud, Os Três Ensaios para uma Teoria da Sexualidade, p. 1.18l.
[3] Op. cit., p. 1218.
[4] Op. cit., p. 1.181.
[5] Franz Alexander - Fundamentos da Psicanálise, p.  238.
[6] Estes fatos são comprovados não só na infância, como também em culturas primitivas.
[7] Freud, S, em Os Três Ensaios para uma Teoria da Sexualidade, p.  1.178.
[8] Op. cit., p.  1.179.
[9]Talvez por isto Freud não ouse ainda combater a designação do homossexualismo como uma “aberração da sexualidade”.
[10] A sublimação vai se encarregar de desviar a pulsão de seu objeto original, que fica perdido para sempre. Exceto para o psicótico ou para o pervertido.
[11] A filosofia platônica lida com a verdade das Idéias. Já a filosofia estóica valorizava os incorporais, ou seja os acontecimentos, formadores do sentido. Os sofistas instrumentalizam esta filosofia e vão ser terrivelmente combatidos por Platão. O diálogo com Górgias tem este fim, arrasar com o sofista. Porque eles assumem a lógica estóica, criando ilusões que enganam o povo. Os estóicos eram nominalistas. Os universais, as essências, as Idéias não existiam para eles. As idéias gerais eram abstrações, que não tinham condição de expressar o ser da coisa, mas somente o pensamento sobre a coisa. O real só podia ser individual. A lógica platônica, então, não podia fazer nenhum sentido para o estóico. Ela convidava a duas distinções: a) por um lado, as coisas limitadas e medidas, as qualidades fixas (permanentes ou transitória), que era a dimensão das Idéias e,  b) por outro lado, a dimensão do puro devir sem medidas, um devir-louco que não se detém jamais, que acontece nos dois sentidos ao mesmo tempo contrariando o “bom senso”; é nesta dimensão que se passa aquilo que se subtrai à ação da Idéia. O puro devir é a matéria dos simulacros. O simulacro contesta “ao mesmo tempo tanto o modelo como a cópia”. É isto que Deleuze vai nos ensinar na Lógica do Sentido.  A  lógica estóica trabalha sobre os paradoxos dos efeitos de superfície. E Platão combate tudo isto como erros e ilusões, contraposições da Verdade das Idéias. Quando Freud se posiciona a favor dos homossexuais e das perversões, absorvendo estes fenômenos como efeitos de superfície, como comportamentos que vão estar sujeitos ao devir dos acontecimentos, ele está combatendo a Verdade estabelecida da Natureza. Por isto ele é um sofista.
[12] Op. cit., p. 1219.
[13] Op. cit., p. 1219.
[14] Luis Alfredo Garcia-Roza, O Mal Radical em Freud, p. 144.
[15] Chazaud faz uma revisão crítica, bastante interessante, sobre algumas das perspectivas contemporâneas sobre a perversão. Cita os trabalhos da escola lacaniana, referindo-se à sua melhor representante, neste terreno, P. Aulagnier. Refere-se ao desdobramento da visão kleiniana, realizado por Diatkine. E cita ainda Glover e Joyce MacDougall. Além destas perspectivas psicanalíticas, Chazaud discute também o ponto de vista antropológico. J. Chazaud, Las perversiones sexuales.
[16] Op. cit., p.  53
[17] As pulsões parciais de uma sexualidade pré-genital continuam se esforçando na direção da satisfação e acabam constituindo uma via de acesso à satisfação, através do sintoma neurótico.
[18] Fenichel resumindo a questão, constata que “perversos são pessoas nas quais a sexualidade é infantil, em vez de ser adulta”. Otto Fenichel , Teoria Psicoanalitica de las Neurosis, p. 416.
[19] Embora existam ações perversas que podem  ser perturbadas pelos sentimentos de culpa, sentindo-se como penosas, ao passo que alguns jogos compulsivos podem adquirir caráter prazenteiro.
[20] J. Chazaud, Las perversiones sexuales, p. 37.
[21] Otto Fenichel, Teoría psicoanalítica de las neurosis, p. 414
[22] Op. cit., p. 417.
[23] J. Chazaud, Las perversiones sexuales, p. 38.
[24] A hipertrofia da pulsão parcial tem dois propósitos: a) servir como reasseguramento contra a angústia de castração e b) servir como força de repressão contra o Complexo de Édipo e outros componentes intoleráveis  da sexualidade infantil.  Assim, o perverso faz uma “repressão parcial” da sexualidade infantil, ao mesmo tempo em que exagera outras partes dela. “A hipertrofia de um determinado componente sexual infantil é utilizada, aparentemente, para fortalecer tal repressão”, Fenichel, Otto, Teoría psicoanalítica de las neurosis, p. 418.
[25] “Se em tal conceito queremos diferenciar mais agudamente o destino que sofre a idéia, da vicissitude que acontece com o afeto,  bem podemos reservar para este último o termo repressão, e em tal caso a palavra que mais enquadra o destino da idéia ou da representação seria denegação ou repúdio”.  S. Freud,  Fetichismo, p. 2994. 
[26] Fenichel, Otto, Teoría psicoanalítica de las neurosis, p. 418.
[27] Chazaud, J. , Las perversiones sexuales, p.  39.
[28] De modo geral, foram experiências eróticas que proporcionaram um reasseguramento contra a temor e angústia da retaliação, onde a gratificação sexual foi sentida com especial intensidade porque se aliou à uma negação da castração.
[29] Fenichel estuda, em separado, todo um conjunto de perversões: homossexual idade masculina, pedofilia, fixações de diversos gêneros (anal, oral, voyeuristico); homossexual idade feminina; fetichismos colecionadores; travestismo, exibicionismo, voyeurismo; coprofilia; perversões orais; submissão sexual masoquística; sadismo; masoquismo; e finalmente, combinações de perversões com neuroses. Fenichel, Otto, Teoría psicoanalítica de las neurosis, Pag. 415-494.
[30] Chazaud, J. , Las perversiones sexuales, p. 40.
[31] A idealização amplifica determinadas idéias, e constrói modelos. Os ideais vão sobreviver como normas éticas e estéticas, enquanto sua contrapartida deverá ser reprimida.
[32] S. Mellor-Picault, Idéalisation et sublimation.
[33] Tratar-se-ia de uma idealização parcial, que distinguiria a perversão das verdadeiras sublimações (assim como das formações reativas), que acontecem diante do objeto total.  Imaginamos que Chazaud tenha sido obrigado a adotar esta saída em funcão da ausência de distinção entre idealização e ideal. Esta distinção está bem realizada pelo artigo de Mellor-Picaut citado anteriormente. J. Chazaud, Las perversiones sexuales, p. 42.